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Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Não nos atirem areia para os olhos

Para mim a política pode ser comparada à organização de um jogo de futebol. Vejo, mando uns bitaites, mas pouco percebo do que para ali se passa. Por isso mesmo, tenho que recorrer aos nomes daqueles que algum dia disseram algo sábio sobre este «desporto» que, como qualquer outro, envolve polémicas, milhões e fazer de tolos aqueles que assistem às jogadas em campo.

 

O grande Albert Einstein escreveu que o seu «ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado».

 

Não é a um jogo de futebol mas a um cenário de guerra que Winston Churchill comparou a política, afirmando que esta «é quase tão excitante como a guerra e não menos perigosa. Na guerra a pessoa só pode ser morta uma vez, mas na política diversas vezes».

 

Para suavizar, ou não, Albert Camus disse que «a política é constituída por homens sem ideais e sem grandeza». Aqui insere-se o Donald Trump e tantos outros que seguem este modelo político, desrespeitoso, sem limites e bom senso, sem humanidade e sem valor.

 

Num cenário atual, penso que estamos a cometer graves erros do passado. Passaram, desde o final da 2.ª Grande Guerra, cerca de 73 anos. Parece que não foi suficiente para voltarmos a separar famílias com o argumento de que «vamos levá-los para tomar banho», colocá-las em espaços isolados, neste caso gaiolas como se de animais se tratassem, e causar todo o sofrimento possível, aliado ao medo do desconhecido.

 

Isto não é humanidade, não é coisa nenhuma. É apenas a estupidez de alguém que diz que «é a lei e isso é o que a lei diz» (Sarah Sanders, assessora de imprensa da Casa Branca, 14 de junho) e descuidam o sofrimento e violação da dignidade humana a troco de quê?

 

Fico incomoda. Tenho receio do que isto possa despoletar. Enquanto nos preocupamos com as futilidades diárias, há um segundo Holocausto a acontecer do outro lado do oceano. Temos que estar alertas. É assustador que cometamos os mesmos erros do passado, apenas compactuando com o nosso silêncio perante aquilo que está a acontecer.

 

E não, aquelas crianças não são atores nem atrizes, não estão num cenário controlado por realizadores, assistentes de maquilhagem, nem seguem um guião à risca em troca de umas centenas de dólares. Cara advogada e analista política Ann Coulter, o seu apelo ao Trump para que não acredite nas imagens de crianças separadas dos pais na fronteira EUA-México são graves. Está a compactuar com esta desumanidade. Com este sofrimento.

 

Aquela imagem da ágora na Grécia Antiga, em que se passou para uma consciência e atitude filosófica sobre o pensar, ficou perdida há muito tempo pelas páginas da História. Hoje, quando penso em política, sinto-me invadida por imagens de palavras de agressão, farpas pessoais que são atiradas, egocentrismos e faltas de respeito.

 

Fico assustada com este assunto. Devemos sentir vergonha. Nós sabemos que isto está a acontecer. Não vamos poder dizer que foi uma representação de atores e que fomos enganados pelas imagens dos meios de comunicação. Não se trata de imigração ilegal. Não se trata de gerir entradas e saídas nas fronteiras de dois países. Trata-se da promessa da construção de um muro, da aplicação de medidas desumanas que foram votadas e aceites. Isto é qualquer coisa mais grave. E vergonha, meus amigos, é aquilo que devemos sentir. Muita vergonha e assombro. Porque nós sabemos e não estamos a fazer nada. Por isso, não podemos permitir que nos atirem areia para os olhos. 

 

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Aquele tempo em saltava à corda e jogava à macaca

Pensar no verão traz-me logo à memória aqueles 3 meses de férias de criança, em que as aulas acabam, os dias são mais longos para brincar e as ruas são nossas até nos cansarmos.

 

Faz-me recuar e pensar nas manhãs em que acordava cedo para brincar o mais possível e passar o dia fora de casa. Entre jogar ao «polícia e ladrão», que desenhavamos nas estradas com pedras de cal o esquema para o jogo, saltar à corda ou simplesmente brincar à apanhada e às escondidas, vem-me à memória uma infância feliz e bem vivida.

 

Os passeios de bicicleta que faziamos pelas descidas e subidas nas estradas da zona industrial, apenas «porque passavam poucos carros» e podíamos estar à vontade para alcançar a máxima velocidade sobre duas rodas, fazem-me sorrir, porque sei que foram momentos felizes.

 

Aquelas alturas em que estavamos a brincar e lembravamos-nos de ir apanhar amêndoas e partir as cascas com pedras que encontravamos no caminho ou quando corriamos pelas ruas a pé descalço para que os chinelos de enfiar no dedo não nos atrapalhassem, eram alturas em que realmente podíamos ser crianças.

 

Subiamos às árvores para apanhar as melhores nêsperas, que limpavamos na camisola e comíamos ali mesmo, à beira da árvore. E que saborosas que elas eram!

 

Não havia horário para chegar a casa. Apenas sabiamos que era de jantar quando o sol se começava a pôr no horizonte ou as nossas mães gritavam pela janela os nossos nomes. Depois? Depois íamos brincar para a rua, nas noites quentes e deliciosas, enquanto as nossas mães ficavam de conversa, sentadas nos bancos, a saborear os seus gelados.

 

Corríamos a pé descalso, gritávamos e gargalhávamos de seguida. Entre jogos de escondidinhas e saltinhos da «macaca», éramos crianças felizes, como agora poucas se veem aos pulinhos nas cidades.

 

Não foi assim há tanto tempo. Pouco mais de 12 anos se passaram desde estas brincadeiras e meses de verão. Aquele tempo em que passávamos realmente os dias nas ruas e éramos felizes apenas com uma corda e pedra de cal. Sim,  porque o objetivo era ter a maior pedra de cal para desenhar no alcatrão da estrada o jogo da «cirumba» ou do «38».

 

Sinto saudades desses 3 meses de verão...

Sinto alegria quando recordo esses momentos...

Fizeram parte de uma infância feliz e de brincadeiras que hoje pouco encontramos.

 

Não há nada mehor do passar os dias de verão, entre brincadeiras com os amigos, ir a casa buscar um pedaço de pão e ir brincar de novo para as ruas. Correr a pé descalço, andar de bicicleta, apanhar nêsperas das árvores, vêr o sol pôr-se no horizonte e pensar que o dia ainda não chegou ao fim. Muito há para acontecer, muito há para brincar.

 

No fundo, para nós, a noite era sempre uma criança. Uma criança feliz entre escondidinhas e saltinhos da macaca.

 

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Há cor no olhar e emoção no coração

Há coisas engraçadas que acontecem no dia a dia,

Que nos enchem o olhar de ternura e alegria.

Ora é um café que nos acorda para vida

Ou um passeio que nos abre uma nova perspetiva.

 

Há coisas que enternecem o coração,

Que nos conquistam com emoção.

Seja um pastor que passeia o seu rebanho

Ou escrever um texto com todo o engenho.

 

Há novas descobertas a todo o instante,

Que demarcam um avanço pelo tempo errante.

Pode ser um lápis que escreve o que vai no pensamento

Ou a procura da receita para o perfeito casamento.

 

Nos encontros e desencontros de caminhos,

Traçam-se sempre novos trilhos,

Numa corrida até à longa meta

Que acalenta as palavras do poeta.

 

Há um brilho no céu azulado que hoje se abre

Numa nova conquista para a realidade,

Um desenho neste quadro em que o pintor

Espelha, através das tintas, todo o seu amor.

 

Vejo em cada corpo uma paleta de cores,

Como se o arco-íris nascesse das flores

Que dão vida a este jardim de Homens

Que, na minha rua, brota cheio de aromas.

 

Vejo cor e sinto desejo.

Sinto o calor que se transforma em amor.

Em cada sensação que aqui descrevo

É uma nova emoção que invejo.

 

Há cor no olhar e emoção no coração,

Sabor no paladar e aroma no respirar.

Por isso desejo em cada sensação encontrar

Um motivo para sorrir, uma razão para amar.

 

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Hoje conheci um amolador e viajei no tempo

A memória é um arquivo que se auto-organiza e arruma entre pastas e gavetas, que se fecham durante horas, dias, meses, anos e até uma vida toda. As gavetas enferrujam-se. Deixam de existir para nós. 

 

Mas há dias em que elas se abrem, e que maravilhoso é o abrir dessas gavetas e explorar esses arquivos...

 

Hoje, viajei no tempo. Foram cerca de 11 anos que pude percorrer entre os arquivos e gavetas da minha memória, que trouxeram até mim a realidade de uma imagem que construí na leitura daquele texto.

 

Hoje, a imagem ganhou forma. Passou do desenho gravado na página do livro de Português para uma construção real.

 

Pela primeira vez na vida vi, falei e fiquei completamente enternecida com um amola tesouras. É verdade! Aquela imagem do meu imaginário tornou-se real.

 

Hoje subi quase até aos céus, como faço todos os dias, através do percurso pelos caminhos verdejantes da serra. Fui para o meu local de trabalho e nisto, um som peculiar, como se de uma flauta se tratasse, começou a tocar. Nunca tinha ouvido algo semelhante.

 

Perguntaram-me: «Sabes que som é este?». «Uma flauta...», respondi entre aquela dúvida de quem dá uma resposta mergulhada na sua ignorância. «Sim, é o amola tesouras que está a passar». Parei, por uns segundos, e fez-se luz na minha memória.

 

A gaveta enferrujada abriu-se e, do arquivo, saltou aquela imagem construída pela leitura. A figura de um senhor com idade avançada, que passava com a sua bicicleta e ia afiando facas e tesouras pelas ruas de uma cidade. 

 

Sim, vi, pela primeira vez, um amola tesouras. Sim, o meu imaginário ganhou forma no mundo real.

 

Tive a necessidade de guardar aquela imagem ao tirar uma fotografia para o arquivo. Mas o que me marcou, foram mesmo aqueles 10 minutos de conversa que me deixaram encantada. A simplicidade, a humildade e o encarar da profissão, praticamente extinta, como um hobbie, fez com que a palavra ganhasse, não só uma forma, mas uma identidade, tivesse voz própria, histórias inesqueciveis e sons dos quais não me vou esquecer.

 

Vai ficar tudo guardado naquela pasta, dentro da gaveta enferrujada, com a promessa de se tornar a abrir em agosto com uma nova visita daquele senhor, daquela figura que se tornou real, que pensei para sempre esquecida, de uma profissão que vai ficar apenas registada em páginas de histórias que farão parte do imaginário. 

 

Sinto-me em vantagem. Conheci um amola tesouras, com vida, cor, som e, mais importante, tem história real.

 

Por isso, a memória é o melhor arquivo que alguém pode consultar. Por mais enferrujadas que estejam as gavetas, basta um som para elas se abrirem e toda uma nova história se escrever.

 

Daqui por dois meses espero registar novas páginas dessa história. Olhar novamente para as faíscas que saltam num cenário que me parece completamente irreal. Ouvir novamente as peripécias de quem vagueia por entre vilas e cidades, de quem não tem local de trabalho fixo e que busca em cada faísca que salta o pão de cada dia.

 

É um recordar daquela «flauta» que toca e parece tão habitual, que as pessoas que conhecem aquele som (gentes de outros tempos), vêm até à porta com tesouras e facas para serem afiadas e reutilizadas por mais uns meses de vida.

 

Uma profissão que «os filhos não querem aprender», que «quando passarmos para o outro lado vai deixar de existir» e, nessa altura, o som daquela flauta, a cor das faíscas a saltarem por entre a pedra que roda e afia as lâminas, as bicicletas com suportes de madeira daquele amolador, vão ficar esquecidas. E são 40 anos de histórias que ficarão gravadas no imaginário das crianças que viram, um dia, o amolador passar perto da porta da casa dos avós.

 

Sim, o hoje será «outro tempo» e nada disto vai ser real no futuro. Por isso, fico muito feliz porque o meu imaginário tem forma, identidade e história. Sim, o meu arquivo está mais rico. E sim, quero voltar a esta gaveta e escrever mais histórias para que, mesmo que se perca a imagem real, no imaginário de todas as crianças, sempre exista um amolador de tesouras que passa, toca e nos transporta a outra realidade.

 

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@Foto de Alexandra Delgado 

 

 

Por último, resta o Amor

Já dizem os Xutos e Pontapés: «vou tirando fotocópias e vou pensando em ti». Este deve ser o melhor verso de um poema que envolve a palavra «fotocópias« (logo seguido pelo texto poético da Alexandra Delgado). Na verdade, todas as palavras são boas para fazer poesia, desde de que se faça magia com elas.


Escrever sobre fotocópias, sem pensar na repetição é, praticamente, impossível, dado que o copiar algo que é de outra pessoa tem o seu maior cumprimento quando se tira uma fotocópia. Fica tal e qual, com ligeiras imperfeições de impressão, que as novas tecnologias vão disfarçando e anulando. Paralelamente, os direitos de autor também estão cada vez mais disfarçados pelo progresso, porque há gente que tudo copia e de tudo se apropria, como se a Criação fosse tão simples de ouvir como o «pi» da fotocopiadora quando termina a sua função. Há que manter os padrões, a honestidade, o reconhecimento e o respeito por aquilo que não fomos nós a criar.

 

Frequentemente somos também fotocópias uns dos outros, produzidos por uma geringonça qualquer (não fazer qualquer conotação política) que nos vai uniformizando e automatizando. E nós, sem nos apercebermos do barulho que nos envolve, vamos caindo em cima uns dos outros, comprimindo os que estão em baixo e sendo esmagados pelos que se vão sobrepondo. Nem nos mexemos. Simplesmente, deixamos que isso nos aconteça, como se essa fosse a única realidade, de tal forma que quando sai algum mal formatado, é lançado no lixo.

 

Somos códigos de barras à espera do «pi» final. Muitas vezes é este o plágio que fazemos de um mundo que pensamos ser o ideal.

 

Mas a esperança de todos irmos tirando «fotocópias e pensando em ti» resgata-nos de tudo isto. É o Tu que ainda nos vai dando cor, porque o Eu, muitas vezes está tão tingido de tinta negra das fotocópias, tão padronizado, que nem repara que já há fotocópias a cores! E são as cores que nos movem no final do dia. E são as cores que nos abrem o horizonte. Aliás, a Criação concede-nos o privilégio de termos, diariamente, o pôr-do-sol cuja característica da cor nos emociona, nos embeleza e nos transporta com uma boa perspetiva para o dia seguinte. Claro que, para alguns beneficiados, o final do dia também traz o conforto de um abraço, a carícia de um sorriso, o aconchego do lar.

 

No fim, resta o Amor, mesmo que seja a preto e branco, como nas fotocópias...

 

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 Nota: Hoje fui eu a escrever sobre fotocópias. Um verdadeiro desafio! 

Entre as amarras do tempo posso voar pela esperança

São longos os ramos que me suportam

Por duas cordas que me transportam,

Num vai e vem, num sobe e desce,

Num vem e vai, que desce e sobe.

 

São fortes e vigorosas

As amarras que me sustentam,

Que me levam a outro nível,

Que me trazem algo aprazível.

 

Um suporte em que me encaixo,

Em que me estendo e relaxo,

Num espaço em que alcanço

Que percorro a pé descalço.

 

Um balanço que me dá força

Que se distingue por entre abraços,

Nesta busca que me desconforta,

Que me destrói em pedaços.

 

Uma força desconhecida

Que impacta descobertas,

Revivo uma infância perdida

Na procura de imagens incertas.

 

Num baloiçar que me transporta à lua,

Que me leva por entre estrelas,

Entre beijos que cintilam,

Que aquecem nas friezas.

 

A água que escorre pelo rosto,

Do sopro intenso, do desgosto,

Numa experiência que me acaricia,

Que recorda a alegria.

 

Mas tudo são memórias,

Puereis e felizes,

Que ficaram no passado 

Que hoje, recordo com saudade.

 

Por isso, sento-me no baloiço,

Dou balanço para trás,

O vento sopra-me no rosto

E tudo isto me apraz.

 

Baloiço e sou feliz,

Baloiço e sou criança,

Entre as amarras do tempo 

Posso voar pela esperança.

 

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Baloiço

Gosto de balançar,
a velocidade dá-me a impressão de voar
e a liberdade que me dás
dá-me a sensação de amar.
Roubas-me à realidade,
fecho os olhos e perco o chão
e, num abraço de fusão,
a brisa acaricia, e dá-se magia.
Agora tenho o azul que me embala,
agarro-me aos teus braços
e, só isso me protege de cair no vazio.
Havia tanto tempo que não te via sorrir,
tive tanto medo que não pudesses vir...
e balanço na vida de cá,
na esperança, desesperada, da vida de lá.
No vai e vem das quimeras,
no momento das coisas efémeras
e tu vens ao meu encontro
no preciso instante das primaveras...
Quando paras
o meu corpo desamparas
e, caio no chão,
num ruído de caixão.
A magia esfuma-se
acaba a paixão.

 

Gosto de balançar
Mas só quando sinto a sensação de amar.

 

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Nota: Hoje o desafio foi escrever em poesia sobre o tema «baloiço». Confesso que foi difícil e, por isso, a Alexandra escreveu, em prosa poética, sobre fotocópias. Hi hi hi.

A fotocopiadora não está avariada

O papel está em branco.

Ouço as teclas que batem vezes e vezes sem conta no teclado, numa construção de palavras que se desfaz a cada som.

Passo para o papel aquilo que me vai no pensamento. Numa dificuldade gigante que se constrói num vazio.

Há imagens que se repetem na minha mente.

Há palavras que se formam num rodopio e se espelham numa visão.

Parecem todas iguais. Como fotocópias de pilhas de folhas que nada dizem.

Um espelho de palavras, imagens, dizeres. Tudo é igual. Tudo parece o mesmo.

Impressões que não acabam, que se multiplicam a cada sonido. A cada apertar de tecla. A cada letra que se junta.

 

São cliques seguidos numa máquina fotográfica. Numa reprodução de frames que não acabam e que desafiam a mente na busca de diferenças.

Tudo são fotocópias. Tudo é igual. Nada é diferente.

A máquina não está avariada. Funciona perfeitamente.

Talvez seja do meu pensamento, da minha mente.

Quero diferença onde tudo é igual. 

Quero mudança onde tudo se reproduz sem mudanças.

Quero algo que a fotocopiadora não me dá. Ela só tira fotocópias. 

Cumpre a sua função.

 

Olho para a janela, numa busca de inspirição, como se procurasse o diferente. O desigual.

Procuro, nas pessoas que passam, diferenças. Todas são iguais. Gabardine preta, chapéu com abas, sapatos escuros. Parecem cópias de si mesmas. Como se se clonassem a cada passada que dão no caminho para o vazio. Um abismo singular, porém comum a todos.

 

Procuro no céu da noite a estrela mais brilhante, a mais diferente, a mais singular. Elas apenas se repetem. São o espelho umas das outras. Olho para o mar que espelha a lua, numa cópia do céu estrelado que a circunda.

 

Percebo que tudo é igual a todos os dias.

Parecem histórias que se escrevem em folhas brancas e que coloco numa fotocopiadora que imprime o dia seguinte igual ao anterior.

Um livro em que todas as páginas são iguais.Não há nada de diferente. Não há nada de novo.

Apenas páginas com coisas escritas, imagens imprimidas e dizeres gravados. Tudo está igual.

A fotocopiadora não está avariada. A vida segue e tudo permanece. Nada de diferente. Nada de novo. O mesmo caminho. O mesmo abismo. Somos fotocópias que se reproduzem para o mesmo fim.

 

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Nota: O tema deste post, «fotocópias», foi um desafio lançado pela Lucia Costa. Acho que posso dizer: «Desafio cumprido»! 

Na tua terra faz o mesmo tempo que na minha?

Vivo mais próximo do céu que a maioria das pessoas. O que, à partida, será sempre uma mais-valia, dado que o grande objetivo também, da maioria das pessoas, é chegar até lá. Eu, que por cá estou há mais de três décadas a única diferença que vejo, ou que não vejo, devido às muitas ocasiões que o nevoeiro me bate à porta, é nula.


A minha serra é composta por um chapéu de nuvens que só saem, às vezes, nos dias de verão e, como o verão deve estar retido nalguma greve de transportes, ou na EN125 devido aos buracos... Por aqui, nem vê-lo. Nem sequer se imagina a proximidade da sua vinda. Será do nevoeiro? Será da chuva molha-parvos (e outros também) que passeiam na rua sem guarda-chuva, porque fica mal andar em junho com um aberto? Não sei... O que sei é que já estou um bocadinho aborrecida da chuva, do frio e do nevoeiro.


Inverno à parte, o que mais me irrita são frases como «então na tua terra faz sempre frio?» ou «porque é que não me avisaste que o tempo estava assim!» ou «na minha terra parecia verão e aqui está assim». Pois é... Eu não tenho culpa do tempo que faz na minha santa terrinha. E não tenho o contacto direto do São Pedro, e mesmo que o tivesse e ligasse para lá, provavelmente deixavam-me em espera a ouvir um Avé Maria qualquer entoado por anjos.


Por acaso, apesar de viver mais perto do céu que a maioria das pessoas, nunca ouvi o cantar dos anjos. Devo precisar, provavelmente, de algum aparelho auditivo para ampliar a minha audição, porque os anos vão passando e as faculdades vão-se perdendo. Certo?


O tempo, que voa e corre e que ainda ninguém consegue mandar, influencia-nos a cada segundo, pelo menos a mim. Por exemplo, quando me levanto com um dia de sol, prevejo imediatamente que, à partida, vai correr bem. Mas assim, segundo este raciocínio, no verão não haveria dias maus, mas há, e alguns bem tempestuosos. Logo, volto com a minha palavra atrás e digo que o tempo é um pretexto para tudo. Se não arrumei a casa, é porque não tive tempo; se cheguei atrasada, é porque não tive tempo; se só comi uma sandes de manteiga, é porque não tive tempo... se acaba a gasolina a 20 metros da bomba, é porque não tive tempo; se fui às compras e só comprei umas meias, é porque não tive tempo para experimentar meia dúzia de vestidos...


Enfim... o tempo existe, não o vemos, não o sentimos, mas ele age em nós sem darmos conta. A pessoa que somos aos 20 anos, modifica-se, e quando chegamos aos 30 já estamos diferentes, nem imagino quando chegar aos 40... Tudo muda e o tempo é, mais uma vez, o culpado. O tempo que não para. Que nos arrasta. Que nos aprisiona. Que nos compromete.


No fundo, espero que este texto não seja uma enorme perda de tempo, porque eu, ao escrevê-lo, quase parei a meio, por falta de tempo...

 

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O meu relógio está sem pilhas

O desafio de escrever sobre o tempo é que este passa fugazmente, como um presente que existiu num passado que se construiu.

 

Pensar sobre o tempo é deixar de viver o agora. É empancar no passado, projetar um futuro e esquecer o presente.

 

Sobre o tempo, muito se diz. A verdade é que ele passa e nada fiz. 

 

Que o tempo corre à velocidade do pensamento é para mim um facto. Sinto-o como criança que constrói um castelo na areia e que o vento derruba quando sopra.

 

Pensar o tempo é perda de tempo. É deixar de aproveitar o agora. É deixá-lo passar enquanto penso no que que estava a pensar. 

 

Quando penso o tempo, reflito sobre a rapidez com que este voa. Como pássaro que levanta voo e desaparece entre as nuvens numa manhã de sol que encandeia o olhar.

 

É olhar para "ontem" e reviver aquele Natal que passou e já não volta. Viver o hoje que deveria ser quase verão, mas em que o céu teima em chorar incessantemente. É sonhar com a beleza do "amanhã", em que as folhas amarelas, vermelhas e castanhas preenchem as copas das árvores numa beleza outonal que me encanta o coração.

 

Pensar sobre o tempo é refletir sobre o vazio. Aquilo que não se concretiza porque é apenas pensamento.

 

Se for para pensar, quero imaginar que estou a viajar. Assim viverei num tempo em que projeto um futuro que me passa pela imaginação. Em que, de olhos fechados, conheço o mundo e tenho sensações quase tão reais como num sonho em que acordo a sorrir.

 

Se for para pensar, quero pensar na felicidade. Aquela que imagino para mim em todos os momentos que vivo no presente constante.

 

Olhar para o relógio é ver o tempo passar, que corre através dos ponteiros sem nunca parar.

 

O meu relógio está sem pilhas.

 

Está parado no tempo. Num tempo presente que não é possível recuar nem avançar. 

 

Não sei em que tempo estou.

 

Quero pensar que vivo no presente.

 

Se for para pensar no tempo, que seja no agora em que vivo um momento.

 

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