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Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Baloiço

Gosto de balançar,
a velocidade dá-me a impressão de voar
e a liberdade que me dás
dá-me a sensação de amar.
Roubas-me à realidade,
fecho os olhos e perco o chão
e, num abraço de fusão,
a brisa acaricia, e dá-se magia.
Agora tenho o azul que me embala,
agarro-me aos teus braços
e, só isso me protege de cair no vazio.
Havia tanto tempo que não te via sorrir,
tive tanto medo que não pudesses vir...
e balanço na vida de cá,
na esperança, desesperada, da vida de lá.
No vai e vem das quimeras,
no momento das coisas efémeras
e tu vens ao meu encontro
no preciso instante das primaveras...
Quando paras
o meu corpo desamparas
e, caio no chão,
num ruído de caixão.
A magia esfuma-se
acaba a paixão.

 

Gosto de balançar
Mas só quando sinto a sensação de amar.

 

10balioço.jpg

 

 

Nota: Hoje o desafio foi escrever em poesia sobre o tema «baloiço». Confesso que foi difícil e, por isso, a Alexandra escreveu, em prosa poética, sobre fotocópias. Hi hi hi.

A fotocopiadora não está avariada

O papel está em branco.

Ouço as teclas que batem vezes e vezes sem conta no teclado, numa construção de palavras que se desfaz a cada som.

Passo para o papel aquilo que me vai no pensamento. Numa dificuldade gigante que se constrói num vazio.

Há imagens que se repetem na minha mente.

Há palavras que se formam num rodopio e se espelham numa visão.

Parecem todas iguais. Como fotocópias de pilhas de folhas que nada dizem.

Um espelho de palavras, imagens, dizeres. Tudo é igual. Tudo parece o mesmo.

Impressões que não acabam, que se multiplicam a cada sonido. A cada apertar de tecla. A cada letra que se junta.

 

São cliques seguidos numa máquina fotográfica. Numa reprodução de frames que não acabam e que desafiam a mente na busca de diferenças.

Tudo são fotocópias. Tudo é igual. Nada é diferente.

A máquina não está avariada. Funciona perfeitamente.

Talvez seja do meu pensamento, da minha mente.

Quero diferença onde tudo é igual. 

Quero mudança onde tudo se reproduz sem mudanças.

Quero algo que a fotocopiadora não me dá. Ela só tira fotocópias. 

Cumpre a sua função.

 

Olho para a janela, numa busca de inspirição, como se procurasse o diferente. O desigual.

Procuro, nas pessoas que passam, diferenças. Todas são iguais. Gabardine preta, chapéu com abas, sapatos escuros. Parecem cópias de si mesmas. Como se se clonassem a cada passada que dão no caminho para o vazio. Um abismo singular, porém comum a todos.

 

Procuro no céu da noite a estrela mais brilhante, a mais diferente, a mais singular. Elas apenas se repetem. São o espelho umas das outras. Olho para o mar que espelha a lua, numa cópia do céu estrelado que a circunda.

 

Percebo que tudo é igual a todos os dias.

Parecem histórias que se escrevem em folhas brancas e que coloco numa fotocopiadora que imprime o dia seguinte igual ao anterior.

Um livro em que todas as páginas são iguais.Não há nada de diferente. Não há nada de novo.

Apenas páginas com coisas escritas, imagens imprimidas e dizeres gravados. Tudo está igual.

A fotocopiadora não está avariada. A vida segue e tudo permanece. Nada de diferente. Nada de novo. O mesmo caminho. O mesmo abismo. Somos fotocópias que se reproduzem para o mesmo fim.

 

abismo.bmp

 

Nota: O tema deste post, «fotocópias», foi um desafio lançado pela Lucia Costa. Acho que posso dizer: «Desafio cumprido»!