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Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Um dia terei uma biblioteca para sonhar

Gosto ler...

 

Cada página de livro que folheio é uma oportunidade de viajar num mundo que se constrói pelas palavras que me enchem o olhar.

 

Entre cada enredo das histórias que consumo, conheço novas pessoas e lugares. Crio os meus mundos de evasão!

 

Há histórias que guardo com particular carinho e aconchego na minha memória. Deixaram marcas que me levaram à reflexão e, de alguma forma, transformaram-me enquanto leitora.

 

Dos últimos livros que li, um deles deu-me a oportunidade de viver essas histórias.

 

Viajei até à 2.ª Guerra Mundial quando devorei o livro de Viktor E. Frankl. Coincidentemente, estava na Polónia durante essa leitura e tinha visitado Auschwitz três dias antes de ser consumida por aquela experiência emocionalmente devastadora.

 

Entre as páginas que percorria, com um aperto no coração por ler o testemunho de uma dessas vitimas da loucura e insanidade de um homem, eis que há uma passagem que fiz questão de guardar e onde se lê o seguinte:

 

«Nós tínhamos muito sofrimento para enfrentar. Era necessário, por isso, encarar toda a dimensão do sofrimento, tentando reduzir ao mínimo os momentos de fraqueza e de lágrimas furtivas. Mas não era preciso ter vergonha das lágrimas, pois elas eram a prova viva de que um homem tinha a maior das coragens, a coragem de sofrer».

 

 

Sinto-me invadida por uma enorme tristeza quando releio estas palavras, mas, ao mesmo tempo, há força naquilo que leio. Força da capacidade de superação. Força para sobreviver!

 

Continua da seguinte forma:

 

«Só uma pequena minoria percebia isso. Alguns confessavam ocasionalmente, envergonhados, que tinham chorado, como aquele camarada que respondeu à minha questão sobre como tinha superado o edema, confessando:'Expulsei-o à custa de lágrimas'».

 

 

São palavras que chocam e que ferem. São emoções avassaladoras e testemunhos de dor. São vidas que ficaram registadas entre as linhas de um livro qualquer, que trazem até mim uma reflexão sobre a coragem.

 

Viajei, chorei, arrepiei-me, sorri e senti aperto e alívio enquanto lia cada página... É uma viagem que tem um valor incalculável. É uma descoberta de histórias de vida que me despertam para o mundo em que vivo. São encontros com um passado que não queremos que fique esquecido. 

 

Estas histórias simbolizam esperança, coragem, força, determinação e mostram que as lágrimas têm poder. Significam que estamos vivos e que temos emoções. Por isso é que gosto de ler. Torna-me mais humana, mais sensível e mais completa.

 

Um dia, terei uma biblioteca cheia de livros e aí viverei todos os sonhos que o Homem pode imaginar!

 

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Citações in O Homem em busca de um sentido, Viktor E. Frankl

 

 

 

O caminho já não é o mesmo...

Os últimos meses têm sido uma verdadeira descoberta. Trouxeram até mim a oportunidade de percorrer caminhos que desconhecia na busca de novos conhecimentos e oportunidades.

 

Percorri atalhos que nunca pensei pisar, construí laços de amizade que apenas podem ser reais quando nos aventuramos em novas experiências. Escrevi textos numa comunhão de sentimentos e vivências. Descobri um quadro serrano que até então não passava de uma obra de arte distante de mim. 

 

Esta obra de arte de uma natureza que se compõe a si mesma, como se da imagem de um quadro pintado pela mão de Deus se tratasse, estava carregada da beleza de esmeraldas plantadas num solo que crescia em direção ao céu.

 

Foi um tesouro que tornou as minhas manhãs mais ricas, por entre as ramagens que faziam de teto ao caminho que percorria todos os dias em direção ao trabalho. Olhava e apreciava a beleza das manhãs. Era um verde esperança que me dava sempre a oportunidade de respirar um ar puro carregado de energias, de boa disposição, de natureza, de bem-estar.

 

Hoje faço esse caminho, mas já não é o mesmo...

A obra de arte foi desfeita, como se de uma censura artística se tratasse. A obra foi queimada. As ramagens desapareceram e o verde esperança foi consumido, sem tréguas, pelo fogo destruídor que deixou apenas as imagens daquela paisagem florestal.

 

Faço esse caminho, mas já não é mesmo...

 

Percorro as mesmas estradas e à minha volta tudo é triste. O negro tomou lugar, o cinzento transformou a esmeralda em cinzas que se desfazem com o vento. No solo apenas se mantêm as cepas de árvores queimadas e, de quando em vez, podemos ver fumos de um pedaço de inferno que teima em marcar presença.

 

O caminho não é mesmo. 

A floresta foi roubada e percorrer esses trilhos trazem mágoa e tristeza a quem adotou a bela serra como segunda casa e que já não existe.

 

Hoje, apenas ficam essas imagens cravadas nas fotografias das descobertas pelos trilhos nunca antes percorridos.

Hoje, ficam apenas as memórias daquele verde que crescia em direção ao céu.

Hoje, fica apenas o retrato de uma serra cuja beleza se retrata nas palavras e fotografias de outros tempos.

 

Nada disto é presente. Nada disto existe no agora.

O caminho já não é o mesmo, mas as descobertas continuam...

 

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 @Foto de Alexandra Delgado

(c)Todos os direitos reservados

O vazio do horizonte

Há dias fiquei estéril. Estéril, porque a realidade desapareceu. Estéril de palavras, porque o que aconteceu não é descritível. Só quem esteve presente e sentiu o calor, o barulho, o ataque desenfreado dos titãs ao nosso pequeno paraíso é que compreende, em todo o seu entendimento, o que aqui se passou.

Fica-nos na pele, no sentimento, não há expressões nem teorias de entendidos que possam justificar o que quer que seja. Sempre pensei que quando acontece uma catástrofe que as pessoas que a sofrem estão minimamente preparadas para isso, que uma força superior lhes confere poderes para que possam aguentar. E foi assim. Só assim se explica o que aconteceu àqueles que tiveram coragem de se digladiar e confrontar o fogo.

 

Quem nasce em Monchique tem seiva a correr nas veias, pactua com o milagre da fotossíntese. Acorda com o cheiro das tílias e dos castanheiros e à sombra dos sobreiros. Sente o cheiro dos eucaliptos que nos faz respirar como se fosse o primeiro sopro da criação. Todos os anos a natureza faz o seu trabalho. Mas quem é de Monchique também sabe da existência de um inimigo poderoso. Que espreita, que nos persegue a cada verão. É como um grilhão que carregamos desde junho a outubro, até caírem as primeiras chuvas. Aí, o cheiro a terra molhada faz-nos respirar de alívio. Sobrevivemos mais um ano. Mas este ano fomos atacados. E atacados com uma força e veemência que desconhecia. Fomos agredidos no coração. No único local que pensávamos seguro: a vila. Foi uma luta de David contra Golias, pequenos grandes heróis que se colocaram à frente do maior titã de todos. Que consumia e avançava com passos de gigante para mais perto e cada vez mais perto, disparando fogo em todas as direções. Urrava, grunhia, atingia metros e metros de altura e rodeava tudo. Ninguém estava a salvo. Ninguém dormia. Até ao raiar de sol. Depois, um manto espesso de fumo envolveu-nos. Pesado. Quente. Sufocante... E este foi o começo do quarto dia.

Para mim, foi o dia da fuga. Não fui capaz de aguentar outra noite em branco com o horizonte em tons de vermelho incandescente e em labaredas ocultas pelo fumo. Saí de Monchique em direção ao Alferce, pela única estrada aberta ao trânsito. Uma capa de cinza cobria tudo. Nos primeiros quilómetros tentei abstrair-me da desolação, do fumo, do cheiro e das profundas raízes que ardiam e fumegavam. E pensei, eu aguento. Não pode ser tão mau. Ali à frente melhora... No entanto, na última curva antes do Alferce, uma lágrima escorreu-me pela face. A abstração tinha falhado! Respirei fundo e continuei. Voltar não era opção. Passámos por fios elétricos caídos, presos por umas pedrinhas que os mantinham esticados, pelo Barranco do Demo em tons de negro, por cabos a arder, pela encosta da Barragem de Odelouca em chamas. De certa forma, o queimado à nossa volta dava-nos uma sensação de segurança. Se já ardeu, o fogo não voltaria. Mas este fogo não foi como os outros. Este fogo foi conquistando cada palmo de terra, cada centímetro. E andou para trás, para a frente, ziguezagueou, saltou, correu e projetou-se por todo o lado.

 

 

Regressei apenas na quinta-feira. Pela mesma estrada. Já nada ardia. Tudo cinza. Tudo cheiro. A partir desse momento comecei, desesperadamente, a procurar pontos verdes. Encontrei alguns. Raros. Frágeis. Quase envergonhados. A vila nunca mais vai ser a mesma. As pessoas ficaram com uma cicatriz profunda para sempre. Frequentemente compara-se este incêndio ao de 2003. Apregoa-se não ter havido vítimas mortais. Ajuda-se com tudo o que há à disposição pessoas e animais. Estão a ser distribuídos kits, fazem-se avaliações, balanços, briefings, reportagens, passeiam-se homens do exército. Visitam políticos. Dizem que são 10 milhões de euros de prejuízo. Serão, de facto, ou até mais do que isso. Mas esses 10 milhões não vão restituir as sobreiras onde brinquei na infância, onde eu imaginava a existência de fadas e gnomos da floresta. Não substitui o olhar triste das pessoas que viram desaparecer o seu horizonte. As lágrimas de alguém que já não tem tempo de ver esses 10 milhões de euros a serem aplicados. E quando eu lhes respondo e interpelo tentando pôr toda a minha assertividade no «não podemos desistir. Não podemos baixar os braços». Um bocadinho de mim deixa de acreditar. Não houve perdas de vidas humanas. Mas o prejuízo é superior aos milhões de euros. Houve o dano da Mãe Natureza, da memória, da felicidade, da sombra, do horizonte. As árvores morreram. Algumas para sempre. Nunca nada vai voltar a ser o mesmo. Este fogo deixou ficar casas, pessoas, algumas hortas, animais, mas morreu o ar, a serenidade, a calma, e as fadas e os gnomos da imaginação.

Claro que vamos levantar os braços, claro que vamos replantar, claro que a Natureza vai fazer o seu trabalho, claro que a próxima primavera trará a esperança. Mas fica um vazio. Um hiato. Um desejo que o tempo passe rápido para que o verde regresse ou que recue e que isto nunca tenha acontecido.
Tenho 37 anos e, na melhor das hipóteses, se não arder tudo outra vez, só aos 67 é que terei hipótese de ver as copas das árvores transformarem o azul do céu em verde. Nunca como agora. Nunca como na infância. Nunca como na imaginação.

 

 

 

 

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A metamorfose da memória

Abro as caixas da memória e mergulho nas inúmeras pastas, até então esquecidas, de episódios de uma vida que me parece cheia, curta, fugaz...

 

Mergulho entre fotografias, textos, pequenas lembranças que ganham forma e cujo significado ficou esquecido há muito tempo...

 

Aquela caixinha branca com borboletas roxas e cor-de-rosa, contém pequenos poemas escritos numa fase de descoberta por sentimentos e emoções. Pequenos recortes de amor, amizade e paixão vividos, intensamente, entre palavras empilhadas, agora guardadas num caderno de capa preta, camuflado no meio de outras páginas soltas.

 

Delicio-me ao reler aquelas palavras!

Trazem-me à memória a inocência e fogosidade daquilo que um pequeno coração descobre na fase mais rica, intolerante, incompreensível e fervorosa da sua vida.

 

Ai, que riqueza o que por ali anda... 

Que beleza a recordação, a intensidade, as palavras!

Tudo tinha sentido.

 

Aquelas borboletas esvoaçantes, que me encheram o quarto de sensações distantes, transformaram o meu sentir!

 

Agora restam os textos guardados na caixa, entre pastas arquivadas, que ficam esquecidas e protegidas pelas borboletas roxas e cor-de-rosa. Talvez, um dia, aquelas recordações voltem a sair da caixa, para encher o meu quarto de vida, entre o bater das asas da liberdade, numa viagem pelo passado...

 

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