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Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Ah... é verdade! Estamos quase no Natal...

Todos os anos prometo a mim mesma que vai ser diferente, que não vou deixar tudo para o fim, que vou fazer uma lista de pessoas com os respetivos presentes. E todos os anos me acontece isto. Quinze dias de frustração. Sim, porque eu só começo a pensar em prendas seriamente, no máximo, no dia 10 de dezembro. Foi ontem, eu sei! E aqui estou eu, em frente ao computador, sem lista, sem presentes, a tentar esticar o tempo para que o espírito do Natal chegue.


Às vezes, sinto que sou o Scrudge ou o Grinch, mas depois de começarem a gostar do Natal. Até comprei uma blusa vermelha para vestir e fiz a árvore de natal e o presépio, em pedrinhas que fui apanhar junto a uma ribeira há uns três anos e que guardo religiosamente (até porque se trata do presépio!) de ano para ano. É isto o espírito natalício, certo?


No entanto, continua a não me «cheirar» a Natal... Falta-me o cheiro do pinheiro verde, apanhado no meio da floresta húmida, da resina a colar as mãos e a manchar cada bola, dos chocolates pendurados na árvore, em forma de pinhas ou sombrinhas, do musgo e da areia que íamos tirar, à noitinha, do monte que o vizinho guardava debaixo de um plástico cheio de buracos.


Bem, com o passar do tempo aprendi que nem tudo é perfeito, que o tempo não volta e que estas recordações são simples utopias de infância. Que agora sou crescida, grande, quase a descair para a segunda idade, não é, Alexandra? E que agora o Natal é um homem vestido de vermelho, que anda num trenó e que dá hambúrgueres às renas, é ouvir o mesmo anúncio de meias 10 vezes em 10 minutos, palpito que devem ser super confortáveis e fazerem qualquer perna cheia de celulite parecer a de uma top model... Sei lá, digo eu... Nunca calcei nenhumas daquela marca. Podem oferecer-me umas, já agora... Só para experimentar... mas como vou fazer um buraco pouco tempo depois de as vestir, podem ser das mais baratas. Não sou uma pessoa exigente. 

Continuando... Que o Natal são luzinhas nas ruas e música de Natal muito alta e rápida quando se entra nos centros comerciais. Se calhar, por isso, é que eu entro e ainda mais rápido me apetece a sair...


Apesar de tudo isto, hoje é dia 11 de dezembro. Não sei o que quero de Natal, a não ser as meias, nem o que vou oferecer às cinco pessoas a quem o meu orçamento permite um sapatinho.


Realmente, parece que fiquei inerte face à preparação do Natal... Mas, não! Aqui vai uma confidência, só para não dizerem que não me esforcei.


No sábado, fui ao centro comercial para as primeiras compras de Natal. Até encontrei uma coisas giras e adequadas a algumas pessoas. Pu-las dentro do carrinho de compras, depois de passar meia hora na secção dos livros, de chocar com uns cinco carrinhos similares ao meu, de passar pela secção dos bolos reis e rainhas, que agora são os mais apreciados (o bolo-rei perdeu o seu vigor quando lhe retiraram o brinde). De facto, o mundo, cada vez mais, é das mulheres. Até nos bolos! Continuei nesta odisseia até chegar à caixa para pagar. Comecei a por os produtos em cima do tapete... E foi aí que me lembrei... Ups! Esqueci-me da carteira em casa.

 

 

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Tradução da imagem: Presente não incluído. 

 

A essência de ser criança

«Sinto-me nascido

Para a eterna novidade do mundo»

(Fernando Pessoa, O Guardador de Rebanhos)

 

Hoje quem me inspira é Fernado Pessoa, através de Alberto Caeiro, que me transmite, pelas suas palavras de sabedoria simples, a beleza do mundo através dos olhos da inocência.

Inspira-me esta frase que me conduz à reflexão sobre a disponibilidade de olhar o mundo, a cada momento, com olhos de esperança e estar disposto a nascer e renascer para sua constante metamorfose.

E o que vejo, hoje, é um mundo onde vagueamos sem destino ou objetivos, por estradas tortuosas e acidentadas, em que cada curva é um desafio para olhar para «a direita e para esquerda» na busca constante de algo novo e que nos encha o olhar.

 

Olho. Vejo. E o que encontro é um vazio onde não reside a esperança ou a inocência de ser criança...

É um mundo que, na sua transformação constante, apenas permite uma descoberta insatisfatória e poucas vezes completa...

 

Mergulho no silêncio profundo, em busca do olhar e das vozes alegres de crianças que brincam e saltam pelos parques. Encontro-a no meu pensamento.

Enterro-me nas areias das praias, debaixo do sol quente e que me cega com a sua luz, numa satisfação tão pueril quanto a idade me permite.

Saboreio o chocolate. Delicio-me com os gelados.

Sinto-me presente em cada instante. Sou criança. Sou feliz.

Entre saltos, corridas e gargalhadas, nasce em cada som um novo mundo.

Um mundo em que a felicidade existe.

Um mundo em que ser criança é apenas ser criança.

Uma transformação constante. Um rodopio incessante!

 

Sinto o assombro que cai quando abro os olhos. Regresso ao mundo em que vivo. Esqueço. Avanço. E perco-me. 

Estou no mundo real. Mas o que é o real?

Vivo para a eterna descoberta não sei de quê, em busca de algo mais no olhar de cada criança que se cruza no meu caminho.

Talvez aí descubra a essência de ser feliz...

 

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