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Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Beleza na rima

Um dia, numa aula, um professor disse que «saber de cor é saber do coração»...

Isto marcou-me. E se há coisa que gosto saber do coração são poemas que me permitem momentos de evasão.

 

Há algo que me reconforta cada vez que leio um texto deste género literário. Algo que me permite viajar num mundo em que existo eu e as palavras, com formas de sentir particulares e que se alteram a cada  nova leitura.

 

É como se o olhar tivesse a capacidade de mudar quem somos em cada verso que é lido e absorvido. Acredito que seja algo espontâneo e intrinsecamente real, como um reconhecimento por quem escreve e um auto-conhecimento por quem lê, que tem a audácia de interpretar o que é dito e, mais importante, o que é sentido.

 

Quando penso em poesia, fecho os olhos e imagino, imediatamente, uma figura humana sentada numa secretária a olhar para o vazio... Como se procurasse inspiração num horizonte que só ele vê, experiencia e consegue transpôr para meras palavras o seu significado, mas nunca o seu verdadeiro sentir.

 

Há beleza na rima, no ritmo das palavras e estética na composição. Há sentimento a fluir em cada novo verso que se compõe. É música e vida, teatralidade, morte, saudade, sadomasoquismo, sofrimento, dor real e inventada, inovação, tristeza, amor, ódio, infortunio e destino. A poesia é tudo! É completa e audaz.

 

Sinto nela um pulsar, como se representasse o bombear do sangue pelo coração de quem sabe que precisa dela para viver. Algo que corre nas veias e alimenta um corpo com nova vida a cada instante.

 

Quase dramático e muitos morreram com os seus poemas. Muitos sobrevivem pela sua herança. Não foram só os poetas, mas são estes que me encantam!

 

Sinto a poesia como forma de oração, que por vezes é uma verdadeira ode à vida. Ela é completa, intensa, fervorosa e baila ao seu próprio ritmo. Ah, soubesse eu dançar estes passos!

 

Quando pego num livro de poemas abro as páginas aleatoriamente, leio um poema em voz alta, porque estes textos precisam de espaço para viver, e penso em cada palavra que está escrita...

 

A poesia é então vida. Pelo menos tem alma e personalidade. Se é pessoa ou não, isso já não sei.

A verdade é que ela é mais completa do que eu alguma vez serei...

 

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Minorias da memória

Vivemos numa sociedade de minorias. Minorias que vão minando e facilmente se transformam em maiorias que invalidam tudo o que até àquela situação, local ou dito tem anos de história, séculos de pensamento, milhares de mortes...


Tenho algum receio destas novas ideias que irrompem, assim, só porque sim, em qualquer lugar, em qualquer mente iluminada. Muitas dessas ideias sem memória. Ideias que assumem o momento presente como o mais importante. E, de facto, devemos viver os momentos presentes, mas sempre com um rasto de história e memória.


Esquece-mo-nos do que se passou, daquilo que os nossos entes mais queridos viveram e que mudou a sua vida, por vezes, a sua mente para sempre.


No outro dia observei meninos com cerca de 12 anos a fazerem a saudação nazi como um cumprimento. Como algo heroico. Assustei-me! Só podemos crescer se conhecermos o nosso passado. Os milhões que morreram durante o holocausto foram, naquele momento, esquecidos por aquela minoria e, para aquelas crianças, os heróis eram os outros... Tenho receio de que as memórias se vão perdendo em prol de uma sociedade mais moderna. Para mim, a sociedade só se pode modernizar alicerçada em pilares de valores, de ideais consistentes.


Para que eu esteja agora, a escrever num blog, no qual posso dar aleatoriamente a minha opinião, muitos pereceram, muitos foram torturados, muitos, ainda vivos, carregam consigo, diariamente, o peso de uma guerra colonial, com uma arma em punho na defesa de terras que não eram as deles, longe da família e do seu aconchego.


O que acontecerá quando estes valorosos homens deixarem de existir? Não podemos assobiar para o lado quando alunos do ensino básico não sabem o que é o 25 de Abril. Não podemos olhar para o ceú quando se defende a falta de liberdade, de direitos, de memórias.


Na minha casa ouvi falar das privações durante a 2.ª guerra mundial, das senhas e do racionamento de alimentos, pelo meu avô, do regresso do meu pai da guerra colonial, já depois do 25 de Abril, e assisti, em direto, à queda do muro de Berlim ou aos primeiros mísseis disparados na guerra do golfo.


Memórias que não se esquecem. Memórias que temos de preservar para podermos dizer que sabemos quem somos e para onde vamos.


Fala-se constantemente que Portugal perdeu o rumo. Será? Somos gente de valorosos conhecimentos, pessoas de indescritíveis feitos. Povo resiliente, capaz de resistir a guerras, ditaduras, crises de cabeça erguida, com cravos na espingarda. O nosso problema é que assim que a situação se resolve, esquecemos. Menos um problema, menos uma coisa em que pensar e deixámo-nos guiar por seres que chegam, sem qualquer mérito, ao poder. Temos eleições e não votamos. Temos liberdade e não a usamos. Temos oportunidades e não as aproveitamos.


Que nunca esqueçamos os nossos egrégios avós. Que se levante a cabeça e sigamos em frente que o caminho é longo e está cheio de pegadas que não se devem apagar com um sopro de leviandade.

 

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O Nada e o Sonho

«Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.»

(Fernando Pessoa, Tabacaria)

 

Hoje quem me inspira é Fernado Pessoa, através de Álvaro de Campos, que se afunda na sua solidão, tristeza, depressão e reflexão sobre a existência. 

 

Há qualquer coisa em cada verso que escreve, seja a melancolia das palavras, o mergulhar no abismo da não existência ou apenas o sentido do nada. Um niilismo surpreendente de quem nega a sua existência, mas que sonha com a libertação...

 

Um nada que o define. Um nada que o perseguirá para a vida: a escolha de não querer ser nada. 

 

No entanto, resta o sonho e a capacidade de o mundo conhecer através desse movimento perpétuo que observa, pela moldura da janela do seu quarto, que é a realidade dos outros. Um olhar nítido sobre os passos percorridos naquela «rua cruzada constantemente por gente / (...) inacessível a todos os pensamentos».

 

Será arte, sonho ou realidade?

 

Talvez seja tudo, até porque o sonho é o alento da realidade. E quando se torna real, ó coisa maravilhosa que é arte da sua existência!

 

Pensar sobre o nada é ter a certeza do vazio em que vivemos. Perdemos capacidades, a identidade, a necessidade de conquista e acomodamo-nos.

 

Observamos o mundo pelas janelas...

 

Há movimento, há conquista, há mudança e repetição. Somos nós, são os outros. Somos atores e redatores. Sonhadores e acomodados. Somos o tudo e o nada.

 

«Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!»

 

E hoje, mais do que nunca, não sabemos quem somos, por onde andamos, quem fomos e o que seremos. 

 

Então resta-nos o sonho. Esta capacidade de percorrer o mundo. Viajar pelos céus, saltar de nuvem em nuvem. E, talvez, perceber o propósito da nossa existência.

 

E como escreveu Fernando Pessoa: «Para viajar basta existir». Então, na certeza de que existimos, viajemos pelos sonhos. Sempre é qualquer coisa...

 

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O perigo do azul

Pego no lápis e nada mais existe.

 

Mergulho na imensidão das ideias que me transportam a um imaginário de papel branco  e de toda a liberdade de escrita, arte e melodia criativa que aquele artefacto de madeira me permite produzir.

 

A ponta é de cor cinza e afiada. Domina a minha mão com a determinação e audácia necessárias para que a invenção ganhe forma e o branco se transforme em algo mais pessoal do que o vazio de ideias original que se apoderou da secretária.

 

Entre as mil e uma cores que existem deste tipo de pontas afiadas, e que aparo incessantemente na busca de inspiração para redigir meras palavras, é este pedaço de madeira que serve de coador desta chuva criativa que transporto para o mundo real. É como que se de um filtro de uma tempestade cultural, opinativa, liberal e controversa se tratasse. Este filtro é azul. Uma cor celestial mas, ao mesmo tempo, sinónima de repressão devido aos monstros do passado que a perseguem...

 

Mas pensemos no leque de tonalidades que realmente cobrem o nosso estojo criativo...

 

A Psicologia estuda as cores usadas pelas crianças ao desenharem a sua arte, num consultório, para conhecerem as suas emoções e traços de personalidade. Os medos também podem ser refletidos nesse tipo de análises cromáticas. No entanto, as crianças, dotadas de ingenuidade, pureza e de fértil imaginação, pintam como se o papel fosse a base da sua maior obra de arte. Sem constrangimentos. Sem receios. Apenas deslizam a ponta que se vai arredondando e tomando nova forma, esburacando aqui e acolá, na expressão de rabiscos, desenhos ou imagens do seu imaginário pueril.

 

Então vou mergulhar nestes pensamentos e tentar perceber porque é que a cor azul é perigosa nos dias de hoje, tal como fora outrora, a mais temerosa e assustadora das cores.

 

O lápis azul tirou a liberdade. Riscou sonhos, cortou palavras de luta e aprisionou pensamentos, ideias e ideais. Aquela cor celestial roubou sorrisos, destruiu a criatividade.

 

Pintou de cinzento rostos e apagou sorrisos. Consumiu obra. Destruiu arte! 

 

O lápis azul devorou palavras. Mastigou diálogos. Bebeu emoções escritas e cantadas... 

 

Pensar nos dias de hoje, que deviam ser sinónimo de lápis cor de arco-íris, que os tempos de outrora eram melhores, é um erro crasso para a liberdade. Não vamos poder pintar com todas as cores do estojo que carregamos orgulhosamente e deixar marcas pelo caminho se esses «tempos bons» regressarem. 

 

Hoje, pensar que podemos reviver o passado e preservar as nossas liberdades (se é que elas efetivamente existem) é utópico e como somos seres imperfeitos, a utopia não nos fica bem.

 

Vamos ser realistas. Deixemo-nos de sonhos cinzentos. Abracemos a liberdade sofrida que outros nos legaram. Agarremos com unhas e dentes a possibilidade de sonhar e acreditar que vai ser possível realizar esse sonho. Agradeçamos aos que sofreram para nos deixarem esta herança independentemente das fauras pendentes. A herança da Liberdade não tem preço, mas a taxa pode ser alta.

 

Antes de recusarmos esta prenda, sejamos gratos. Não fosse hoje o «Dia do Obrigado»!

 

Então sejamos práticos: pousemos os lápis e pintemos com as mãos!

 

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Nota: A Lucia deu-me a palavra «lápis» e eu desafiei-a a escrever sobre a «lâmpada»

Lâmpada mágica

A aurora surge no horizonte. Azul, laranja, encarnada e lilás...
É um novo dia que se ergue.
Uma nova esperança, uma ânsia de aventura, de descanso, de mudança.
A cada instante a claridade domina a sombra.
Na expetativa de revelar a felicidade.
Na angústia do véu que me cobre o olhar.
O calor beija-me a face ao mesmo tempo que um frio cortante dilacera as entranhas.
O negrume do presente guerreia com a luminosidade do dia.
O tecido que me cobre envolve as mãos e o movimento.
A ação de desanuviar o pó que te envolve ofusca a aurora.
Uma brisa congela a luz e surges imponente.
Dominante. Tens em ti os desejos do meu futuro.
Os três desejos para a eternidade.
As três opções para a felicidade.
Desconheces o teu poder.
Trazes o potencial do vento que varre.
Do vento que leva, que conta as novidades.
És lâmpada de génio.
És inspiração e espírito de vida.
Tu, talento de qualidade extraordinária.
Tu, luz. Tu, lâmpada. Tu, ação.
Tu, clique para um destino incerto.
Tu, renovação.

 

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Nota: A Alexandra deu-me a palavra «lâmpada» e eu fui ao imaginário...

Coisas que não vão mudar em 2019

Nesta altura do ano é comum fazerem-se balanços e resoluções. Balanços que, supostamente, servem para aprendermos alguma coisa, mas como não conseguimos alterar o passado, geralmente não têm grandes efeitos práticos. Resoluções, que só valem enquanto pensamos nelas, porque depois, logo na semana seguinte, ficam esquecidas até ao dia homólogo do ano seguinte, até porque não sabemos o futuro. Há até quem diga que nada se pode alterar e que pouco se pode fazer, dado que um ente superior, mais entendido nas artes futuristas, já escreveu, por linhas tortas, o que nos vai acontecer.

 

Independentemente disto tudo, e porque não sou pessoa nem de grandes balanços, nem de empenhadas resoluções, atrevo-me a enumerar uma série de coisas que se vão manter igualmente iguais, apesar de termos mudado de ano e estarmos quase a mudar de década.

 

Primeira coisa, o tempo cronológico. Não vão haver nem mais meses, nem dias, nem horas ou minutos. São exatamente os mesmos que nos anos anteriores. Não se esqueça de apontar: viver cada momento intensamente!

 

Segunda coisa. Não vou conseguir celebrar os meus 30 anos outra vez, porque vou fazer 39 e tal como o ano, também estou quase a mudar de década...

 

Terceira coisa. Reza a história da minha vida que por mais que faça dieta é uma coisa que não resulta em mim. Até porque, apesar de não comer muito e de achar que se fôssemos todos alimentados a pílulas supernutritivas éramos muito mais elegantes e mais cheios de tempo e evitava-se essa coisa de matar animais para comer, algo completamente moderno! Uma barbárie dos tempos atuais!

 

Quarta coisa. Não sei bem, mas parece-me que, tal como desde o início do mundo, vão continuar a haver dias de chuva, frio, sol, calor, portanto, igual, igualzinho.

 

Quinta coisa. Neste momento começam a faltar-me as ideias, tal como a muitos de nós, logo como é algo que me acontece frequentemente, daí a falta de regularidade na publicação de posts no blog, também é outra coisa que não se vai alterar em 2019.

 

Sexta coisa. Não vai deixar de existir corrupção, maldade, crueldade. Assim como o Amor e a Esperança também não se devem alterar.

 

Sétima coisa. E eis que chegamos ao número da perfeição, por falar disso, é perfeitamente expectável que a perfeição continue a não existir na sua plenitude em 2019.

 

Oitava coisa. Também é de esperar que não se altere a música, até porque é um bem que nos eleva o espírito e nos faz bem à mente. Ou, como acontece no filme «Marte Ataca», faz explodir os cérebros dos extraterrestres que tentam invadir o nosso planeta. Quer acreditemos ou não que somos únicos no universo, penso que continuarmos a ouvir música não nos faz mal nenhum...

 

Nona coisa é aquela que, por muito que nos faça estremecer, não se altera e é o que temos mais certo: a lei da vida.

 

Décima coisa. Como é habitual, seguindo a lógica do decálogo, é bonito terminar no número 10. Portanto, que não se altere a tradição.

 

Aqui fica o meu primeiro e, provavelmente, único decálogo do ano. Podem haver outras coisas que não vão mudar, mas não me lembro de momento, pelo que pode acrescentar nos comentários...

Se leu até aqui, perdeu alguns dos momentos que deve viver intensamente (volte à primeira coisa). No entanto, parabéns! A partir de agora, o nosso blog faz parte da sua vida em 2019. 

 

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E eis que chegou 2019...

2019 chegou e com ele começam a ganhar forma os tradicionais desejos para o «ano novo, vida nova».

 

Então que assim seja!

 

Vou pensar nas minhas resoluções e escrevê-las. Pode ser que assim pareçam mais credíveis do que meros pensamentos engolidos nas 12 passas que não comi...

 

Que este ano entre levemente, como brisa que sopra pelos dias que agora passam, sem darmos por isso, e que seja uma lufada de ar fresco para recuperar dos dias de azáfama vividos para celebrar o ano que findou.

 

Que traga consigo a possibilidade de desejos realizar, sejam eles as tão desejadas saúde, paz, alegria e sucesso, como o sol que aquece nas tardes de inverno ou as estrelas que pintam o céu limpo numa noite de verão em que acampamos com amigos e tocamos melodias ao som da guitarra.

 

Que a mudança seja radical para quem quer a «vida nova»! Que corte a respiração, agite, derrube, levante e abrace. Que haja consolação!

 

Que 2019 traga coragem para vencer barreiras, determinação para saltar os obstáculos e ganhar a maratona de sorriso rasgado e sem fôlego ao cortar a meta.

 

Que seja sinónimo de respeito e amor! Que traga paz aos corações e nos ajude a sermos mais compreensivos. Se assim não for, para quê comer as 12 rugosas passas?

 

Autenticidade! E olha que este é importante... Sermos fiéis a nós e aos outros para termos a tão desejada paz de espírito.

 

E se não for pedir demais, então ainda quero que 2019 seja um ano em que a alegria, a sabedoria e a coragem andam de mãos dadas, como crianças que saltam à corda e brincam com a bola da mudança.

 

Que hajam sonhos e que estes possam ser bem reais e felizes...

 

Que o tempo permita a leitura, passeios pela praia, viagens para lugares de cortar a respiração e conhecer novas pessoas!

 

Que possa cumprir metas pessoais e profissionais para crescer em sabedoria (já chega de brincadeiras com a balança!).

 

Então que seja isto. Que se cumpra esta utopia e que 2019 seja melhor que 2018 e se não for, também não me importo que seja igual.

 

Afinal o que conta é mesmo poder ser feliz!

 

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