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Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Minorias da memória

Vivemos numa sociedade de minorias. Minorias que vão minando e facilmente se transformam em maiorias que invalidam tudo o que até àquela situação, local ou dito tem anos de história, séculos de pensamento, milhares de mortes...


Tenho algum receio destas novas ideias que irrompem, assim, só porque sim, em qualquer lugar, em qualquer mente iluminada. Muitas dessas ideias sem memória. Ideias que assumem o momento presente como o mais importante. E, de facto, devemos viver os momentos presentes, mas sempre com um rasto de história e memória.


Esquece-mo-nos do que se passou, daquilo que os nossos entes mais queridos viveram e que mudou a sua vida, por vezes, a sua mente para sempre.


No outro dia observei meninos com cerca de 12 anos a fazerem a saudação nazi como um cumprimento. Como algo heroico. Assustei-me! Só podemos crescer se conhecermos o nosso passado. Os milhões que morreram durante o holocausto foram, naquele momento, esquecidos por aquela minoria e, para aquelas crianças, os heróis eram os outros... Tenho receio de que as memórias se vão perdendo em prol de uma sociedade mais moderna. Para mim, a sociedade só se pode modernizar alicerçada em pilares de valores, de ideais consistentes.


Para que eu esteja agora, a escrever num blog, no qual posso dar aleatoriamente a minha opinião, muitos pereceram, muitos foram torturados, muitos, ainda vivos, carregam consigo, diariamente, o peso de uma guerra colonial, com uma arma em punho na defesa de terras que não eram as deles, longe da família e do seu aconchego.


O que acontecerá quando estes valorosos homens deixarem de existir? Não podemos assobiar para o lado quando alunos do ensino básico não sabem o que é o 25 de Abril. Não podemos olhar para o ceú quando se defende a falta de liberdade, de direitos, de memórias.


Na minha casa ouvi falar das privações durante a 2.ª guerra mundial, das senhas e do racionamento de alimentos, pelo meu avô, do regresso do meu pai da guerra colonial, já depois do 25 de Abril, e assisti, em direto, à queda do muro de Berlim ou aos primeiros mísseis disparados na guerra do golfo.


Memórias que não se esquecem. Memórias que temos de preservar para podermos dizer que sabemos quem somos e para onde vamos.


Fala-se constantemente que Portugal perdeu o rumo. Será? Somos gente de valorosos conhecimentos, pessoas de indescritíveis feitos. Povo resiliente, capaz de resistir a guerras, ditaduras, crises de cabeça erguida, com cravos na espingarda. O nosso problema é que assim que a situação se resolve, esquecemos. Menos um problema, menos uma coisa em que pensar e deixámo-nos guiar por seres que chegam, sem qualquer mérito, ao poder. Temos eleições e não votamos. Temos liberdade e não a usamos. Temos oportunidades e não as aproveitamos.


Que nunca esqueçamos os nossos egrégios avós. Que se levante a cabeça e sigamos em frente que o caminho é longo e está cheio de pegadas que não se devem apagar com um sopro de leviandade.

 

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O Nada e o Sonho

«Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.»

(Fernando Pessoa, Tabacaria)

 

Hoje quem me inspira é Fernado Pessoa, através de Álvaro de Campos, que se afunda na sua solidão, tristeza, depressão e reflexão sobre a existência. 

 

Há qualquer coisa em cada verso que escreve, seja a melancolia das palavras, o mergulhar no abismo da não existência ou apenas o sentido do nada. Um niilismo surpreendente de quem nega a sua existência, mas que sonha com a libertação...

 

Um nada que o define. Um nada que o perseguirá para a vida: a escolha de não querer ser nada. 

 

No entanto, resta o sonho e a capacidade de o mundo conhecer através desse movimento perpétuo que observa, pela moldura da janela do seu quarto, que é a realidade dos outros. Um olhar nítido sobre os passos percorridos naquela «rua cruzada constantemente por gente / (...) inacessível a todos os pensamentos».

 

Será arte, sonho ou realidade?

 

Talvez seja tudo, até porque o sonho é o alento da realidade. E quando se torna real, ó coisa maravilhosa que é arte da sua existência!

 

Pensar sobre o nada é ter a certeza do vazio em que vivemos. Perdemos capacidades, a identidade, a necessidade de conquista e acomodamo-nos.

 

Observamos o mundo pelas janelas...

 

Há movimento, há conquista, há mudança e repetição. Somos nós, são os outros. Somos atores e redatores. Sonhadores e acomodados. Somos o tudo e o nada.

 

«Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!»

 

E hoje, mais do que nunca, não sabemos quem somos, por onde andamos, quem fomos e o que seremos. 

 

Então resta-nos o sonho. Esta capacidade de percorrer o mundo. Viajar pelos céus, saltar de nuvem em nuvem. E, talvez, perceber o propósito da nossa existência.

 

E como escreveu Fernando Pessoa: «Para viajar basta existir». Então, na certeza de que existimos, viajemos pelos sonhos. Sempre é qualquer coisa...

 

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