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Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Há dias assim

Surgiu no céu uma das maiores luas do ano. Não sei se é mesmo assim. Perco a conta às muitas variedades de lua que aparecem no céu.


Quando eu era pequena ensinaram-me que a lua tinha quatro fases. Agora há luas vermelhas, azuis, gigantes, pequeninas, brancas, brilhantes e, qualquer dia, cor de rosa às bolinhas...


No fundo, uma lua é uma lua. Sempre um bocadinho mal disposta apesar da sua beleza, talvez por nunca ter o protagonismo principal e ser apenas um satélite.


Dizem que influencia as marés, matanças de porco, gravidezes, etc. Não sei... Até porque hoje estou no lado lunar e não me apetece pensar nisso.

 

Quando acordamos com a lua, o dia leva sempre mais tempo a passar e as coisas não têm a mesma beleza. Há crateras que se abrem e levantam um pozinho que incomoda. Afinal, «toda a alma tem uma face negra» e «nem eu nem tu fugimos à regra». No entanto, nada que uma fonte cristalina não resolva.

 

Apesar de tudo, há dias assim. 

 

E, nisto, olhei para o céu. Era o sol a iluminar o lado escuro da lua!

 

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Texto escrito como sugestão da Alexandra, a pedido de uma leitora.

Beleza da Lua!

Num quadro pintado de negro,

Surgem, de quando em vez,

Raios brancos que iluminam a negritude

E coroam de rainhas

As estrelas que no céu cintiliam.

És Musa que enfeitiça.

Poção que enlouquece!

Transformas a natureza

Pelo pranto que entristece.

A Tua carga é poderosa,

Teus cabelos ao vento voam,

És para nós formosa

E bela é Tua coroa!

És magia que na noite

Torna forte a emoção,

Tens carisma e és gratidão.

Entregas-Te ao Homem pela luz

Que erradias na noite escura

Como Mulher que se seduz.

Teu lado feminino

Tem a força e o poder

De trazer ao mundo perdido

A descoberta do ser.

Ò Lua! Que pela Tua beleza

Transfiguras a escura noite,

Pintas no quadro com clareza

A perfeição da incerteza.

És o sol da noite,

És a força angelical.

Carregas em Ti a energia

E o segredo de amiga.

Na imensidão do silêncio

És melodia que se espalha,

Do amor que há na terra

És Natureza que se retalha.

 

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Hoje sinto-me chuva

Chove lá fora.


O barulho embala-me o pensamento e faz-me viajar para lá do sonho.


Para um momento não vivido e para uma realidade que não existiu.


A chuva é assim, pequenos pingos de quimeras.


Por vezes, chega mais forte e a viagem torna-se intensa. Depois, mais fraca, embalando o caminho. E ainda outras vezes vem silenciosa, vai caindo... sem que lhe ouçamos o propósito. Apenas sabemos que lá está. Sentimo-la a deslizar pela face, mas não se vê. E queria tanto, mas tanto, vê-la.


É esta versão da chuva que me faz sentir chuva. Que me faz movimentar e sonhar contigo. Estás e não estás. Sinto-te e não te vejo. Escorres pelas mãos e não te consigo agarrar.


Hoje sinto-me chuva. Ela bate-me à porta e eu abro na esperança de te ver. Na esperança de seres tu. Na esperança vazia que voltes atrás e que recomponhas e reconstruas cada instante. E ela insiste em fazer-se ouvir. Sei que não vens. Sei que não podes alterar nada. Sei que não fazes reconstrução do meu ser. Mas também imagino que o faças, que venças a tormenta na ânsia de um novo céu. Tu, tempo. Tu, conhecimento. Tu, eu.

 

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Chuva

As lágrimas que caem do céu,

São como melodias cantadas pelos anjos.

Secam a sede das plantas sem arranjos

Que outrora serviram de troféu.

 

Escorregam pela face nua,

Triste, tímida e sem cor.

São como marcas de amor

Que percorrem a tua rua.

 

Caem nas poças que se formam

À passagem da melancolia,

São como a noite e o dia

Que de solidão em ti transbordam.

 

São o bálsamo de Deus

Que à terra vem germinar.

Belas flores vem regar

Que nascem nos olhos teus.

 

É chuva que cai ao mar,

É música que à vida vem.

De tudo o que ela tem

Resta a razão para amar.

 

Era dentro de mim que chovia,

Era minha alma que chorava.

Na lembrança de tempos de outrora

Em que era o sonho que comandava.

 

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Hoje, sejamos quartos de lua cheia!

Grandes tratados se escrevem hoje. Maravilhosas promessas são feitas. Infinitas juras são ditas. Milhares de alusões ao amor são pesquisadas e identificadas.


A pessoa humana é um ser em busca, em procura constante de amor e felicidade. Ora, se o amor tem razões que a própria razão desconhece, também a felicidade carece de inúmeras ações que mais não são do que pequenos nadas. A frequente demanda pela plenitude nunca para, porque somos seres caminhantes, em constante mutação, que tentam captar o conhecimento da beira do caminho.


Se aos 20 anos pensava que o que me faria feliz seria ter uma vida estável, aos 30 descubro que o que me faz feliz é o conhecimento que se adquire das coisas. Agora, aos 38 anos, faz-me feliz a Beleza. Das palavras, momentos ou atitudes. Faz-me feliz um abraço fraterno, assim como um «és a melhor mãe que um filho pode ter».


Recentemente li que «não sentimos amor, somos amor». Então sejamos amor! Para nós próprios e não só para o nosso par. Só assim, inteiros, podemos ser sóis de alguém, e não metades de lua que necessitam da luz do outro para se completar. Só amamos em plenitude quando nos damos todos e não somente migalhas. Pouco ou nada adiantam flores, presentes, palavras apaixonadas quando estamos a olhar para o lado e quando nos outros 364 dias nem pensamos nisso ou achamos que não merecemos esse constante estado de atenção.


O dia de São Valentim é o relembrar da celebração do amor contra tudo.


Então, que amemos a nossa outra parte e o nosso eu. Que amemos quem precisa e quem não precisa. Que amemos os mais carrancudos e os mais alegres. Que amemos quem nos traz um sorriso e quem partilha um problema. Amemos todos em pleno e sem receio, porque melhor que nos amarmos a nós mesmos é deixar-mo-nos levar pelo amor. Sejamos felizes!

 

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Ser Amor!

Mergulhar na literatura é um privilégio, ainda mais num dia em que o tema é um dos mais tratados pelos grandes pensadores que tiveram a audácia de defini-lo, entre a contradição e exarcebação do sentimento que vai para além da compreensão do Homem.

 

Sobre ti muito se escreveu. Muito se viveu, definiu, experienciou e até muitos morreram...

 

Encontro-te na Antiguidade, em que eras endeusado em Afrodite, uma representação da beleza astral, do prazer e da alegria. Cruzamo-nos na medievalidade, em que eras cantado por trovadores que, debaixo das janelas, dedicavam trovas românticas às suas senhoras.

 

Atingiste um auge com o sofrimento que provocas. Causaste dor, angústia, contradição e a morte! Foste responsável pelo nascer e destruir de vidas, pela felicidade e tristeza dolorosas. Não foste sensível pela brutalidade que representas num fogo que incendeia corações e impede que o ar circule. Destruiste a alma dos poetas, mas inspiraste a sua morte pela beleza que representas! E que beleza...

 

Neste mergulho pelo abismo que não tem fim, vejo-te nas páginas escritas e lidas e percebo que não és mais do que a evasão dos sentimentos pelos pensamentos contraditórios da existência. A necessidade de amar para ser amado. A puerilidade no envelhecimento. A chuva que mantém viva a chama pelo beijo da revelação. São o teu ser platónico e carnal que causam sofrimento ao poeta!

 

És o que Camões celebremente escreveu: fogo, ferida, contentamento e dor, mas também és solidão e perdição, derrota na vitória e liberdade na prisão!

 

Agarrar-se a ti é prender-se à ilusão de ser feliz. Viver-te é conhecer mais além. Ser quem tu és e o que representas, é a plenitude da vida!

 

Viver o amor é diferente de ser Amor. E hoje, em particular, é imprescindível sermos primeiro Amor, para depois amar!

 

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Pessoas de olhar triste

Num lugar distante, perdido no tempo, moram pessoas de olhar triste. Um olhar velado de quem apenas vê até à montanha que lhe quebra o horizonte.


Fazem a vida tal como todas as pessoas. Andam ligeiramente curvadas e, na sua maioria, com o olhar pregado nas pedras de calçada. Talvez as contem enquanto caminham?... Há um ou outro momento em que riem e confraternizam, mas o cinzento do olhar mantém-se. Não têm culpa. Não têm noção. É gente pacata que nas suas décadas de vida olharam sempre para o mesmo horizonte. Sempre na mesma direção.

 

Falam da vida dos outros como se fosse mais importante que a delas. Às vezes até inventam coisas e situações que ninguém sabe se realmente aconteceram, para terem que conversar durante a semana. Nessa altura, todos os recantos da terra respiram e falam baixinho sobre o assunto.

 

Apesar disto, as pessoas de olhar triste têm opinião sobre política e futebol. Sempre com o cunho de há 50 anos. Utilizando sempre as mesmas expressões, sempre a mesma conivência, sempre a mesma apatia. Não há ação, porque as pessoas de olhar triste apenas caminham pelo trilho que conhecem ao ritmo dos sinos da igreja.


Quando alguém transpõe a montanha, o que é raro. Quando volta, se voltar, já não tem o mesmo olhar. Por vezes, faiscam centelhas de esperança. Nunca mais vai conseguir ser a pessoa de olhar triste de antes.


A tez das pessoas de olhar triste é marcada pela torreira do sol do trabalho no campo, por canteiros no rosto, que são valas profundas, tão profundas como o vazio que lhes vai no coração e que elas pensam que preenchem com generosidade.


Esta gente única está por aí. À nossa beira. Ao nosso lado e acomoda-se com as migalhas que lhe vão dando.

 

Talvez nós sejamos pessoas de olhar triste?...

 

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Entendimento das coisas

Há coisas que não têm de ser percebidas. Existem só porque sim e não devemos contrariar.

 

Outras devem apenas ser sentidas, vividas e pouco mais. Não devem ser racionalizadas, pensadas ou projetadas. Apenas existem.

 

Há coisas que não devemos procurar. Elas acontecem naturalmente quando têm de ocorrer. Quase numa perspetiva fatalista em que tudo está a mercê de um destino em que não acreditamos que exista.

 

Há a condenação da liberdade, uma busca sem precedentes pelo amor ideal, uma necessidade de encontrar a felicidade plena e a procura de qualquer coisa para completar um projeto de vida idealizado os vinte anos de idade.

 

Todo um conjunto de perspetivas que falham constantemente, que é condenada pelos objetivos delineados e que não se concretizam por uma infelicidade existencial que toma conta do ser.

 

Mas há coisas que não têm de ser percebidas...

 

Acho que é neste ponto de estagnação que se encontra a nossa sociedade, mais propriamente os jovens.

 

Andamos para aqui, movidos num jogo maior em que as regras não estão acessíveis a todos. Somos peões deslocados por entidades, peças de um monopólio em que percorremos a base de cartão do jogo em círculos sem sentido e não fazemos mais do que essas voltas intermináveis até falirmos e perdermos o interesse pelo caminho que seguimos vezes e vezes sem conta, sem objetivos concretos.

 

Há coisas que não têm de ser entendidas, mas esta não é uma delas!

 

Precisamos de um rumo, uma bússola que oriente os nossos caminhos. Uma projeção de futuro, sem teorizações e cientificidades que permitam a construção de um percurso de vida feliz.

 

Há necessidade de encontrar um sentido ou algo que mova as peças numa direção promissora que sejam mais do que a carreira, a construção de um pró-forma de família ideal e a utopia de um amor para a vida toda.

 

Neste momento não somos mais do que peças programadas desde que entramos no mundo escolar até à altura em que somos atirados para o mercado de trabalho, sem nada mais e nada menos do que os sonhos românticos de um jovem de vinte anos que tem em si «todos os sonhos do mundo».

 

Há coisas que têm de ser percebidas e a possibilidade de encontrarmos os nossos caminhos e sermos produtores da nossa própria felicidade é uma delas.

 

Para ser feliz não é preciso muito. O problema é que na vida tudo é relativo. E é essa relatividade que tem de ser trabalhada.

 

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