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Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Crónica de uma véspera de fim de semana

Quando entras num sítio e te olham de alto a abaixo, com uma cara que grita «o que é que esta gaja faz aqui?» é coisa para começar mal. Até porque eu estava a pensar exatamente o mesmo: «o que é que eu faço aqui?».


Não sei se a pessoa em questão me leu o pensamento, mas espero que tenha sido só uma telepatia momentânea, dado que o que pensei a seguir não é algo que se possa revelar.


Ora. Tudo aconteceu numa véspera de fim de semana, depois de, de manhã, ter adiado um compromisso inadiável; ao almoço, ter comido uma sandes de fiambre, por não ter tempo para mais nada e a tarde ter sido dividida entre, correr atrás de um político no meio de terra batida, silvas e ervas e correr atrás do elemento mais novo do meu agregado para o despachar numa viagem, de três dias, sem os pais. Até aqui um dia normal, logo, nada melhor para terminar esta epopeia, que ir jantar fora e deixar a louça e os tachos arrumadinhos para o dia seguinte...


E eis que chegámos, na linha cronológica, àquele momento em que a pessoa me olha.


Tínhamos todas as mesas do restaurante à escolha, pelo que não foi difícil decidirmos por um lugar perto da parede, que nos dá sempre aquela sensação de proteção e segurança...

 

Fomos, imediatamente, abordados com a ementa: FRANGO, entrecosto, febras... o resto não percebi porque o senhor ia baixando o tom de voz à medida que os pratos de afastavam do FRANGO. Fizemos o pedido e, logo, assim, sem ninguém solicitar e sem ser esperado, uma voz desafinada de alguém com mais vinho no corpo, que sangue, irrompe na sala ao lado. Ninguém merece!


Foi de ir às lágrimas, primeiro pelo riso de não acreditar na situação em que estava, depois porque a voz não se calou um segundo... Consequência: deu-me a minha afamada bretueja nos braços (isto acontece quando ouço música que não gosto) e fui brindada com uma dorzinha de cabeça. Tentei desligar a audição, a sério que tentei, mas não surtiu qualquer efeito...


A pessoa entoava, quer dizer, gritava, fados de outro tempo, muitos deles que só ela conhecia e percebia a letra. Lembro-me do assassínio que foi a música «Cinderela», de Carlos Paião ou do «Cheira bem, cheira a Lisboa».


Os pratos não eram maus de todo. Descobri que os tomates e a alface da salada sabiam nadar, e bem, no azeite da travessa; que frango assado, pode ser branco e que as batatas fritas foram, de facto, mergulhadas em óleo.


Para terminar o jantarinho, pedimos a conta que incluiu a música ao vivo, a natação sincronizada da salada, as batatas afogadas, o frango vindo de algum país nórdico, duas sobremesas, apesar de termos comido uma e os cafés que, assumo, estavam quentes. Só para não pensarem que não saímos satisfeitos, deixámos gorjeta.



Moral da história: Quando alguém te olha com a expressão «o que é que esta gaja faz aqui?» é altura de ir embora. Lição apreendida! Juro!

 

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Nota:Texto dedicado e solicitado pela pessoa que me acompanhou durante o jantar.