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Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Eles são a história que não queremos deixar de ler

Não tem quase nada e, do pouco que tem, boa parte já a memória levou consigo.

Não resta muito entre as hortas abandonadas, os baldes com água das últimas chuvas e folhas que lá caíram.

Há ferramentas enferrujadas entre pedras e caminhos que não existem.

Há um abandono das lides que outrora eram símbolo de vida.

Um desapego ao sentimento.

Um abandono da realidade ou uma simples paragem no tempo.

 

No fundo, não tem nada.

É uma embalagem vazia, sem interesse e que se esquece.

Um pedaço de história que fica esquecida entre livros de biblioteca.

Uma folha de papel, na caixa ao fundo do sótão, cheia de pó, mas cheia de memória.

É bolacha sem sabor, imagem sem cor.

É iogurte fora do prazo ou pizza sem queijo.

É algo sem sabor, sem cor, sem som.

Uma qualquer coisa que pouco se move, um nada que só existe.

 

Mas quando se para e observa, há toda uma história, uma vida, uma descoberta.

Uma cor no olhar triste e abandonado.

As rugas da vida gasta e vivida a trabalhar debaixo do sol.

Rugas que fazem caminhos pelo rosto consumido pela idade. 

Trilhos carregados de dor.

Um sorriso que se esconde entre as amarguras da vida.

Uma pequena boca, quase vazia, onde restam as últimas palavras que soam de quando em vez.

Palavras que ecoam pelo silêncio gritante daquele sítio sem gente.

A gentileza nas mãos que seguram a bengala e apoiam o corpo curvado e consumido pela idade.

Uma beleza dos anos que passaram. 

Uma história. Uma vida.

São pequenos heróis que se construíram e que o tempo leva consigo.

 

Estão sós. Abandonados.

Acompanhados pela solidão.

São tão sós. Tão eles. 

Estão sem Nós.

 

São velhos que por aí estão.

São velhos com um grande coração.

Com história, com vida.

Eles já foram como nós.

Eles são aquilo seremos.

Eles são a história que não queremos deixar de ler.

Que queremos ouvir

E que queremos viver.

Eles são os nossos «avós».

 

 

Mãos de velho.jpg