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Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Hoje conheci um amolador e viajei no tempo

A memória é um arquivo que se auto-organiza e arruma entre pastas e gavetas, que se fecham durante horas, dias, meses, anos e até uma vida toda. As gavetas enferrujam-se. Deixam de existir para nós. 

 

Mas há dias em que elas se abrem, e que maravilhoso é o abrir dessas gavetas e explorar esses arquivos...

 

Hoje, viajei no tempo. Foram cerca de 11 anos que pude percorrer entre os arquivos e gavetas da minha memória, que trouxeram até mim a realidade de uma imagem que construí na leitura daquele texto.

 

Hoje, a imagem ganhou forma. Passou do desenho gravado na página do livro de Português para uma construção real.

 

Pela primeira vez na vida vi, falei e fiquei completamente enternecida com um amola tesouras. É verdade! Aquela imagem do meu imaginário tornou-se real.

 

Hoje subi quase até aos céus, como faço todos os dias, através do percurso pelos caminhos verdejantes da serra. Fui para o meu local de trabalho e nisto, um som peculiar, como se de uma flauta se tratasse, começou a tocar. Nunca tinha ouvido algo semelhante.

 

Perguntaram-me: «Sabes que som é este?». «Uma flauta...», respondi entre aquela dúvida de quem dá uma resposta mergulhada na sua ignorância. «Sim, é o amola tesouras que está a passar». Parei, por uns segundos, e fez-se luz na minha memória.

 

A gaveta enferrujada abriu-se e, do arquivo, saltou aquela imagem construída pela leitura. A figura de um senhor com idade avançada, que passava com a sua bicicleta e ia afiando facas e tesouras pelas ruas de uma cidade. 

 

Sim, vi, pela primeira vez, um amola tesouras. Sim, o meu imaginário ganhou forma no mundo real.

 

Tive a necessidade de guardar aquela imagem ao tirar uma fotografia para o arquivo. Mas o que me marcou, foram mesmo aqueles 10 minutos de conversa que me deixaram encantada. A simplicidade, a humildade e o encarar da profissão, praticamente extinta, como um hobbie, fez com que a palavra ganhasse, não só uma forma, mas uma identidade, tivesse voz própria, histórias inesqueciveis e sons dos quais não me vou esquecer.

 

Vai ficar tudo guardado naquela pasta, dentro da gaveta enferrujada, com a promessa de se tornar a abrir em agosto com uma nova visita daquele senhor, daquela figura que se tornou real, que pensei para sempre esquecida, de uma profissão que vai ficar apenas registada em páginas de histórias que farão parte do imaginário. 

 

Sinto-me em vantagem. Conheci um amola tesouras, com vida, cor, som e, mais importante, tem história real.

 

Por isso, a memória é o melhor arquivo que alguém pode consultar. Por mais enferrujadas que estejam as gavetas, basta um som para elas se abrirem e toda uma nova história se escrever.

 

Daqui por dois meses espero registar novas páginas dessa história. Olhar novamente para as faíscas que saltam num cenário que me parece completamente irreal. Ouvir novamente as peripécias de quem vagueia por entre vilas e cidades, de quem não tem local de trabalho fixo e que busca em cada faísca que salta o pão de cada dia.

 

É um recordar daquela «flauta» que toca e parece tão habitual, que as pessoas que conhecem aquele som (gentes de outros tempos), vêm até à porta com tesouras e facas para serem afiadas e reutilizadas por mais uns meses de vida.

 

Uma profissão que «os filhos não querem aprender», que «quando passarmos para o outro lado vai deixar de existir» e, nessa altura, o som daquela flauta, a cor das faíscas a saltarem por entre a pedra que roda e afia as lâminas, as bicicletas com suportes de madeira daquele amolador, vão ficar esquecidas. E são 40 anos de histórias que ficarão gravadas no imaginário das crianças que viram, um dia, o amolador passar perto da porta da casa dos avós.

 

Sim, o hoje será «outro tempo» e nada disto vai ser real no futuro. Por isso, fico muito feliz porque o meu imaginário tem forma, identidade e história. Sim, o meu arquivo está mais rico. E sim, quero voltar a esta gaveta e escrever mais histórias para que, mesmo que se perca a imagem real, no imaginário de todas as crianças, sempre exista um amolador de tesouras que passa, toca e nos transporta a outra realidade.

 

IMG_6393.JPG

 

@Foto de Alexandra Delgado 

 

 

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