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Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

Mantinha do Ego

Pequenos retalhos que cobrem o alvorecer de dois quotidianos...

O perigo do azul

Pego no lápis e nada mais existe.

 

Mergulho na imensidão das ideias que me transportam a um imaginário de papel branco  e de toda a liberdade de escrita, arte e melodia criativa que aquele artefacto de madeira me permite produzir.

 

A ponta é de cor cinza e afiada. Domina a minha mão com a determinação e audácia necessárias para que a invenção ganhe forma e o branco se transforme em algo mais pessoal do que o vazio de ideias original que se apoderou da secretária.

 

Entre as mil e uma cores que existem deste tipo de pontas afiadas, e que aparo incessantemente na busca de inspiração para redigir meras palavras, é este pedaço de madeira que serve de coador desta chuva criativa que transporto para o mundo real. É como que se de um filtro de uma tempestade cultural, opinativa, liberal e controversa se tratasse. Este filtro é azul. Uma cor celestial mas, ao mesmo tempo, sinónima de repressão devido aos monstros do passado que a perseguem...

 

Mas pensemos no leque de tonalidades que realmente cobrem o nosso estojo criativo...

 

A Psicologia estuda as cores usadas pelas crianças ao desenharem a sua arte, num consultório, para conhecerem as suas emoções e traços de personalidade. Os medos também podem ser refletidos nesse tipo de análises cromáticas. No entanto, as crianças, dotadas de ingenuidade, pureza e de fértil imaginação, pintam como se o papel fosse a base da sua maior obra de arte. Sem constrangimentos. Sem receios. Apenas deslizam a ponta que se vai arredondando e tomando nova forma, esburacando aqui e acolá, na expressão de rabiscos, desenhos ou imagens do seu imaginário pueril.

 

Então vou mergulhar nestes pensamentos e tentar perceber porque é que a cor azul é perigosa nos dias de hoje, tal como fora outrora, a mais temerosa e assustadora das cores.

 

O lápis azul tirou a liberdade. Riscou sonhos, cortou palavras de luta e aprisionou pensamentos, ideias e ideais. Aquela cor celestial roubou sorrisos, destruiu a criatividade.

 

Pintou de cinzento rostos e apagou sorrisos. Consumiu obra. Destruiu arte! 

 

O lápis azul devorou palavras. Mastigou diálogos. Bebeu emoções escritas e cantadas... 

 

Pensar nos dias de hoje, que deviam ser sinónimo de lápis cor de arco-íris, que os tempos de outrora eram melhores, é um erro crasso para a liberdade. Não vamos poder pintar com todas as cores do estojo que carregamos orgulhosamente e deixar marcas pelo caminho se esses «tempos bons» regressarem. 

 

Hoje, pensar que podemos reviver o passado e preservar as nossas liberdades (se é que elas efetivamente existem) é utópico e como somos seres imperfeitos, a utopia não nos fica bem.

 

Vamos ser realistas. Deixemo-nos de sonhos cinzentos. Abracemos a liberdade sofrida que outros nos legaram. Agarremos com unhas e dentes a possibilidade de sonhar e acreditar que vai ser possível realizar esse sonho. Agradeçamos aos que sofreram para nos deixarem esta herança independentemente das fauras pendentes. A herança da Liberdade não tem preço, mas a taxa pode ser alta.

 

Antes de recusarmos esta prenda, sejamos gratos. Não fosse hoje o «Dia do Obrigado»!

 

Então sejamos práticos: pousemos os lápis e pintemos com as mãos!

 

azul.jpg

 

 

 

Nota: A Lucia deu-me a palavra «lápis» e eu desafiei-a a escrever sobre a «lâmpada»

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